o “mercado” a ditar as regras

7 Novembro 2010

– Estamos a viver num totalitarismo do mercado?”

Exatamente, não queria ser tão duro, mas é. Ao invés de sermos nós a ditar as regras para o mercado funcionar, é o mercado que nos impõe as normas para sobreviver (que, aliás, é a ausência de normas). E isso é o pior, porque o mercado sem regras pede-nos hoje o contrário  do que nos vai pedir amanhã. Ou do que nos pediu ontem, que foi resgatar a mão invisível do mercado do próprio desastre que tinha gerado. Ou seja, fazer intervencionismo flagrante a expensas do contribuinte ou de quem  poupa, para resgatar o mercado.

Ponha-se na pele de Obama:  primeiro devo colocar 700.000 milhões, depois de 880.000, total, dois bilhões de dólares só para sair do desastre causado pelo sistema financeiro sem regras. Muito bem.  Uma vez colocado esse dinheiro, puro dinheiro público, puro endividamento a que chegámos, e você já foi resgatado, agora exige-me  reduzir drasticamente o défice e a dívida a que cheguei para o resgatar. O mercado pede-me para me endividar e, em seguida, exige que me desendivide ou serei penalizado.

Isto é o incompreensível da situação que estamos a viver. Se se tivesse o poder e determinação para regular o funcionamento do sistema financeiro, não voltaria a acontecer o que aconteceu e devolveriam o dinheiro público que lhes foi entregue.

Felipe González (antigo primeiro-ministro espanhol), numa entrevista em El País.

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