Anatomía de un Instante, de Javier Cercas

17 Janeiro 2010

Os críticos do suplemento literário do El País, Babelia, elegeram Anatomía de un Instante, de Javier Cercas, como o livro do ano em Espanha.
Trata-se de uma crónica (?) romanceada (em El País aparece sob a categoria “ensaio”) dos acontecimentos que ensombraram Espanha no dia 23 de Fevereiro de 1981.
O “instante” é o momento em que Adolfo Suárez (primeiro-ministro demissionário), o general Gutiérrez Mellado (vice-primeiro-ministro) e Santiago Carrillo (secretário-geral do PCE) decidem não obedecer à ordem de atirar-se ao chão dada pelo golpista Tejero (“todos al suelo”) entre disparos dos “guardias civiles” que acabavam de irromper no Congreso de los Diputados (Assembleia da República) no momento em que se votava a investidura do primeiro-ministro, que iria substituir Adolfo Suarez.
É esse o momento e o prisma a partir do qual J. Cercas nos apresenta aquela época (a chamada “transición”) de Espanha.

Fiquei com a sensação de que Cercas usava uma estratégia narrativa de círculos quase concêntricos que se deslocavam ligeiramente para trás ou para a frente. Daí a sensação de repetição, de estar voltando constantemente ao mesmo ponto. Calculo que Cercas pretende criar esse efeito repetitivo, daí o recurso à repetição (para o meu gosto, excessiva, ou excessivamente evidente) de palavras, estruturas, caracterizações, paradoxos, etc. (por exemplo os substantivos, adjectivos ou expressões que em forma de epítetos são aplicados aos diferentes protagonistas, ao governo que eventualmente deveria ter saído como consequência do 23 F, etc.). Lembro, por exemplo (sem qualquer pretensão de rigor nestas citações), a repetição de: “golpe de timón, golpe de bisturí o cambio de rumbo” “um gobierno de salvación nacional o de concentración o de gestión”, “que (o que X cree, ou siente, que )”, “un hombre politicamente acabado y personalmente roto”, etc.
Um bocado inverosímil é a “perfeição” em que se estrutura, aos pares, a relação entre Adolfo Suarez, o general Gutierrez Mellado e Santiago Carrillo vs. o general Alfonso Armada, o general Milans del Bosch e o tenente-coronel Antonio Tejero.

De qualquer maneira, um livro interessante, sem dúvida. Será que a sua leitura terá a mesma capacidade de “prender” o leitor que não viveu os acontecimentos?

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