Já quase não leio romances

14 Janeiro 2010

Estou a perder a paciência para ler romances. Para além de livros mais ou menos da minha área, dou por mim, nas livrarias (físicas ou outras), à procura de obras claramente afastadas do que poderíamos chamar “literatura de ficção”. A primeira parte do artigo publicado pelo sociólogo espanhol Vidal-Beneyto no início deste mês em El País, retrata, em parte, o que sinto quando largo um romance após as primeiras 20 ou 30 páginas de leitura. Será que isto tem cura? Melhor não ter cura?


“A literatura invadiu todos os âmbitos da comunicação, principalmente da escrita, e impôs os seus valores, as suas pautas, os seus modos e as suas gentes. À literaturização do pensamento, hoje já culminada, seguiu esta apoteose literária dos meios de comunicação, que outorga os maiores louvores e os melhores espaços aos literatos e consagra a autoqualificação de escritor, a que mais abunda hoje nos jornais, como signo de demarcação da excelência, como razão de pertença à tribo dos eleitos. Os jornalistas propriamente ditos ficam reduzidos à condição de empregadozeco, de mexeriqueiro da notícia, já para não falar dos expertos, principalmente dos científicos sociais, obstinados mendicantes de um furo em que meter as suas análises e reflexões. Para aprofundar nesta perspetiva, ver: Oskar Negt e Alexander Kluge, Öffentlichkeit und Erfahrung (Suhrkamp, 1972) e Serge Halimi, Les nouveaux chiens de garde (Liber-Raisons d’agir, 1997).

O escritor, pelo contrário, dispõe de todas as oportunidades para, ignorando o saber acumulado sobre a maior parte dos grandes problemas e questões, se lançar de corpo e alma à apresentação das suas mais banais ocorrências, isso sim, com o brilhantismo que lhe confere a sua consabida destreza retórica…”

JOSÉ VIDAL-BENEYTO > E l macabro vodevil de Copenhague (El País) [02/01/2010]

Foto: Kampers (no flickr)

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One Response to “Já quase não leio romances”

  1. patfranca Says:

    Conheço bem a sensação. Tinha-a muito presente há uns anos atrás (e por causa dela enveredei pela Linguística, em busca da objectividade, de pragmatismo). Essa sensação da inutilidade da ficção/literatura a mim incomoda-me por vir eu da área de letras.
    Há poucos anos, depois de ter visto verdadeiros campos de batalha em países absurdamente pobres (como Timor, Burundi…), a literatura deixou, por uns tempos, de fazer sentido. Que utilidade teria ela em países como aqueles? Há todo um contingente de necessidades primárias a ser satisfeito.

    E depois, é como diz JOSÉ VIDAL-BENEYTO, há aquela pretensão arrogante de que ser escritor é entrar num clube VIP, onde a entrada é restringida aos eleitos. Não basta ser escritor, é preciso ser O escritor e O crítico literário. Na verdade, é a arrogância e o pedantismo com que alguns (a minoria, quero crer) escritores se colocam num pedestal que me repugna hoje. E também a forma como a literatura sempre foi ensinada nas escolas. Não é a literatura/ficção em si que me desilude.

    E hoje, convenhamos, é difícil fugir ao relativismo, ao “não há factos, mas argumentos”. Quem é versado em retórica ganha o debate. Ganha-o na arena política, na arena científica, na comunicação social…


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