A impotência de Deus, de Javier Ortiz

24 Março 2008

“Não estava com muita predisposição na sexta-feira passada para submeter-me a uma sessão de adoutrinamento religioso, especialmente porque tinha ficado cansado de procurar com uma mão uma emissora que não me falasse de devoções e procissões enquanto tentava fixar com a outra o ponto preciso de cozedura dos “calamares en su tinta”.
Estava nisso quando dei com um sermão do bispo emérito de Pamplona, a quem chamaram “das sete palavras” com óbvia falsidad, como demonstrou a sua duração.
O bispo, que parecia bastante chateado (em alguma coisa tínhamos que coincidir), dedicou o grosso do seu comício a pôr Jesuscristo como exemplo de bem morrer. “Sem cuidados paliativos”, disse várias vezes, não vá alguém despistar-se e não lhe apanhar a intenção.
Eu sei que a minha vocação cartesiana casa mal com a metafísica teologal, mas, uma vez que o bispo emérito parecia apelar ao meu raciocínio, pus-me logo a raciocinar. E perguntei-me bastantes coisas (sem perder de vista os calamares, claro). Por exemplo: Como é que este bispo sabe que Jesuscristo, se é que existiu mesmo e morreu como a sua Igreja pretende, sofreu muito? Não está a ver que era Deus, e que isso condiciona tudo? Podia modular à vontade o grau do seu sofrimento. Além disso: É lícito julgar o seu comportamiento como se fosse um homem qualquer e não uma entidade que sabia que podia morrer e ressuscitar todas as vezes que lhe desse na gana? Para além de que, sendo Deus e não podendo escolher não morrer, em que medida a sua decisão de sujeitar-se à crucificação não teve aquele seu de suicídio, por mais que soubesse que não podia morrer, porque era (é) eterno? E, já para concluir (embora pudesse seguir até ao infinito com esta colecção de contra-sensos conceptuais), Que classe de cuidados paliativos necessita quem apenas sofre o que Ele mesmo escolheu sofrer?
Fazem batota. Quem decidiu acreditar no sobrenatural deve sujeitar-se ao específico do universo mental que escolheu: não pode pretender que Deus fuja às nossas leis físicas e, ao mesmo tempo, antropomorfizá-lo quando lhe dá na real gana.
Resumindo: se Deus existisse, não seria todo-poderoso. Pelo menos faltar-lhe-ia uma coisa: seria incapaz de não ser Deus.”

De Javier Ortiz, no Público (24 de Março de 2008) > El dedo en la llaga> La impotencia de Dios
(tradução minha)

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One Response to “A impotência de Deus, de Javier Ortiz”

  1. Patrícia França Says:

    Afinal Deus não é perfeito!!!
    Bom artigo, excelente humor!


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