Estruturas conceptuais, ontologias e universos de referência (II)

1 Novembro 2007


Continuamos às voltas com o projecto de dissertação de mestrado sobre dicionários orientados ao conceito:

As tentativa de estruturação da realidade (ou da modelização que dela fazemos), de representação do conhecimento, que encontramos nos produtos lexicográficos de orientação onomasiológica ou nas “ontologias”(no sentido em que é usado na informática para a representação do conhecimento, bases de dados lexicais, bibliotecas digitais, redes semânticas, tesauros, dicionários, web semâmticas, etc.) pode parecer demasiado naif, simplista ou redutora se a entendermos como uma tentativa de arrumar, catalogar, etiquetar em grelhas ou estruturas fechadas.
Mas, podemos utilizar estas ferramentas sem ser de maneira fechada.
Uma vez que os significados não são como as coisas, entidades separáveis, contáveis, os dicionários deverão, de alguma maneira, ser reflexo da concepção da significação (do significado das palavras ou de combinação de palavras) não como um fenómeno discreto, mas flexível e processual, construído em e para um contexto determinado.

O conjunto de acepções de uma palavra (sozinha ou em combinação com outras) recolhidas num artigo lexicográfico lembra-nos a metáfora dos holofotes de Geeraerts [apud Silva (1997: 621)]:

«Metaforicamente falando, as palavras não são pacotes de informação (metáfora conceptual depositada na nossa mente e frequentemente verbalizada nos termos que utilizamos para falar das palavras); as palavras são antes, diz Geeraerts […], holofotes que se movem e que, em cada aplicação efectiva, iluminam uma porção particular de todo o seu domínio de aplicação. O número de porções ou subconjuntos que podem ser iluminados não é determinado mas também não é infinito, e entre esses conjuntos alguns são preferenciais.»

Já em 1958, E. Nida contestava a concepção do significado de uma palavra como o denominador comum a todas as situações em que o termo é empregue:

«Note that we specifically reject meaning as ‘a common denominator’ or ‘what is common to all situations in which a term is employed.’ If, for example, we analyze the use of charge in the following contexts, we will find that a common denominator would be precious little indeed. It would be only a small part of the total meaning signalled by charge in the various contexts: […]. The only way to ‘define’ the meaning of charge is to describe (usually by illustrative phrases or sentences) the distribution of the word.» (Nida, 1958: 282).

Por outro lado, é benéfico para quem se dedica a reflectir sobre estas questões de representação do conhecimento, o problema da referência, as relações entre conceitos / referentes, etc., não se limitar apenas à pura reflexão teórica. Como disse Carlos Cruz-Díez (Óscar Lucien: Carlos Cruz Díez. La vida en color, Documentário em TVE Internacinal [2007/11/01-9 horas]:

“El artista [e não só] tiene que materializar, no sólo teorizar, porque las ideas solas intoxican”

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NIDA, E. A. (1958) «Analysis of meaning and Dictionary making», em International Journal of American Linguistics, XXIV, 3, 279-292.
SILVA, A. S. da (1999) A Semântica de DEIXAR. Uma Contribuição para a Abordagem Cognitiva em Semântica Lexical. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian / Fundação para a Ciência e a Tecnologia [Tese de doutoramento. Braga: Universidade Católica Portuguesa-Faculdade de Filosofia de Braga, 1997]

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