Política da língua

2 Maio 2007

Tenho um documento no computador (se fosse em papel, já estaria um bocado amarelecido) com algumas anotações que fui recolhendo sobre projectos futuros (é esse o nome do ficheiro) em que gostava de trabalhar.
Um deles já foi levado a bom porto numa dissertação de mestrado por mim orientada (sobre o caótico uso do hífen em “palavras” do tipo Primeiro-Ministro / Primeiro Ministro; caminho-de-ferro / caminho de ferro; bilhete-de-identidade / bilhete de identidade; etc.)*.
Um outro projecto era sobre a origem e o uso no português europeu das variantes velar (ou uvular) e alveolar da vibrante múltipla R (o de Rosa, ou caRRo). Soube agora que uma aluna de mestrado vai trabalhar sobre a questão. (Como diria Pablo Milanês: “Nos vamos poniendo viejos”).
A origem desta variação na articulação do R (que, estou convencido, é responsável pelos muitos casos de dificuldades articulatórias com o R no português europeu) vem, provavelmente, dos tempos da Restauração.
Há, nesta altura, um investimento claro (uma autêntica política linguística, que hoje temos muito que invejar) na substituição do castelhano pelo francês como língua de cultura. Um combate contra o gosto literário castelhano ainda vigente ou, mais ainda, contra a situação de bilinguismo que existia a nível das elites culturais e literárias:
“…logo após a Restauração de 1640, em 1641, D. João IV enviou uma missão diplomática à França com fins não só políticos e económicos, mas também culturais, embora nenhum dos membros dessa comissão conhecesse a língua francesa. Por outro lado, nos últimos anos do século XVII já começa a formar-se uma elite europeizante que se volta sobretudo para a França graças às “Conferências discretas e eruditas” (1696) realizadas em casa do 4º Conde de Ericeira, com a participação de um padre teatino francês, D. Rafael Bluteau…” (Machado, 1984: 25)**.

Este é, talvez, um dos principais motivos do apoio de D. João V ao Vocabulário Portuguez, e Latino de Rafael Bluteau, que
“representa um marco essencial no processo de aproximação da língua portuguesa ao francês, que conquistou o espaço privilegiado outrora ocupado pelo castelhano” (Silvestre, 2004: 451)***.

A opção ortográfica etimologizante feita para o português nessa altura não é apenas mais uma influência francesa, mas também produto do afastamento consciente das opções feitas pelo castelhano (vd. Vazquez Corredoira, 1998)****.

* Gomes, Manuela do S. P. (2006) Os Nomes Compostos nos Dicionários Portugueses. O Hífen e a Variação Gráfica [dissertação de mestrado defendida na Universidade do Minho em 31 de Outubro de 2006].
** Machado, Alvaro Manuel (1984) O ‘francesismo’ na literatura portuguesa. Lisboa, ICALP (col. Biblioteca Breve).
*** Silvestre, João Paulo M (2004) Rafael Bluteau e o Vocabulário Portuguez, e Latino: Teoria Metalexicográfica, Fontes e Recepção [tese de doutoramento defendida na Universidade de Aveiro em 24 de Novembro de 2004].
**** Vázquez Corredoira, F. (1998) A construção da língua portuguesa frente ao castelhano. O galego como exemplo a contrario. Corunha, Laiovento.

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One Response to “Política da língua”

  1. Álvaro Says:

    Há uma outra versão deste “post” no Portal Galego da Língua: http://www.agal-gz.org/modules.php?name=News&file=article&sid=3639


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