O filósofo inglês John Gray foi o convidado de Carlos Vaz Marques no programa Pessoal e Transmissível de 29/03/2007, da TSF.

Não me pronuncio sobre outras análises de John Gray (não tenho competência para o fazer) ou sobre as suas previsões sobre o futuro (ainda menos competência tenho) mas, como pode afirmar que não houve progresso humano?

Não há progresso humano, apenas progresso científico, afirma John Gray, porque é impossível mudar o mundo.

Não sei se determinados “Senhores” vivem hoje igual, melhor ou pior do que há cem, quinhentos ou mil anos. Sei é que hoje as mulheres, os operários, os filhos dos escravos, etc. vivem um bocado melhor.

E devemos isso a pessoas e a grupos que acreditavam no progresso social, no progresso humano. Às utopias de ontem, aos activismos de ontem para transformar o mundo.

A 8 minutos do fim do programa, Carlos Vaz Marques coloca-lhe a questão:

– CVM: Se ao longo da história tivesse prevalecido essa atitude contemplativa, John Gray, talvez estivéssemos ainda a viver num mundo dominado pela religião, pelo poder absoluto, com escravatura, abusos de toda a ordem…Estaríamos melhor?

– JC: Mas também poderíamos não ter sofrido o comunismo ou o maoísmo, essas grandes e terríveis tentativas de mudar o mundo. Um dos paradoxos da vida passa pelo facto de as tentativas de alterar e melhorar radicalmente a vida redundarem, regra geral, em algo de muito pior. Se esses anseios tivessem sido concretizados, o mundo seria ainda muito pior. A maior parte das utopias é mais mortífera do que a realidade existente. Olhando para a História, tendo a pensar que os activismos para transformar e melhorar o mundo tiveram consequências mais negativas do que positivas. Se tivéssemos contado com mais gente com uma atitude contemplativa, o mundo provavelmente seria menos violento e menos cruel. Não teria sido completamente pacífico, não seria absolutamente belo, porque isso não é possível, mas provavelmente teria podido ser bem menos selvático. …

Para que alguns se possam dedicar à contemplação (essa actividade humana superior à acção, segundo John Gray), alguém terá de tratar de outras coisas mais básicas. Por exemplo, de semear as batatas que os filósofos comem, de tecer as camisolas que os filósofos vestem ou de recolher o lixo que os filósofos produzem).

E já agora: O que fazemos com as pessoas ou os povos que vivem hoje pior do que viviam antes? (por exemplo, antes de os europeus lá chegarem). Dedicamo-nos a “contemplá-los”, como se de um belo “pôr-do-Sol” se tratasse?

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