"Aulas magistrais" ou "ensino centrado no aluno"?

19 Dezembro 2006

1. Saíamos “estafados” das aulas do Professor Aguiar e Silva, eu e os meus colegas do Mestrado em Língua e Literatura Portuguesas. Exaustos. Mas era uma sensação de cansaço particularmente agradável.
As aulas magistrais do Professor Aguiar e Silva eram outra coisa. E não apenas pelos seus conteúdos. Era surpreendente a sua capacidade de prender a atenção dos que estávamos na sala. De nos cativar. Tanto foi assim que, pessoalmente, me levou a duvidar sobre a minha clara orientação para a linguística. Mas, voltei a enveredar pelos caminhos da linguística. E, mesmo nestes caminhos, o Professor Aguiar e Silva foi também o responsável pelo empurrão definitivo que me levou ao mundo da lexicografia, como já referi numa colaboração para o livro Largo mundo alumiado. Estudos em homenagem a Vítor Aguiar e Silva[1], publicado pelo Centro de Estudos Humanísticos, da Universidade do Minho, Centro que o professor fundou em 1980, então com o nome de Centro de Estudos Portugueses.
2. Há muito tempo que defendo que o principal papel do professor universitário é “orientar” as pesquisas, as descobertas, as leituras dos alunos. Não é isto o que hoje, no modelo de Bolonha, conhecemos como “ensino centrado no aluno”? Mas, o que aconteceria neste modelo de Bolonha com as magistrais “aulas magistrais” de professores como Aguiar e Silva?
O processo de Bolonha não deverá alimentar uma retórica fácil do “aprender fazendo”, que entende a aquisição de conhecimentos como um “elemento limitador”. Não é assim que entendemos o “ensino centrado no aluno”.
Fico surpreendido com a quantidade de vezes que encontro alusões à questão da aquisição de conhecimentos como um “elemento limitador” no ensino universitário. Será que agora só se pode falar em “resultados de aprendizagem, destrezas, competências, habilidades, etc.”? É apenas isto o que um aluno universitário necessita? E o que se passa com a aquisição de conhecimentos? Já não faz falta adquirir/transmitir (e, principalmente, gerar) conhecimentos na Universidade? Passaremos a formar na Universidade apenas “gestores do conhecimento”? Deveremos formar apenas licenciados orientados para uma actividade profissional? Deverá ser o mercado, os empregadores, as leis da oferta e da procura, a ditar-nos que conhecimentos, que formação deverão ter os nossos licenciados?[2]
3. Surgem, então, perguntas como: Para que servem as Humanidades? Qual é a sua utilidade? Mas, “lamentavelmente” não me parece que as Humanidades sirvam para produzir muito “lucro” e, portanto, terão pouco interesse para eventuais financiadores. Neste contexto, as letras podem parecer um “luxo” de que deveremos prescindir.
Até agora, as Humanidades tinham uma “função coesionadora das comunidades”[3]. As Humanidades tinham uma utilidade: o que podemos chamar a construção do discurso nacional, que justificava a reserva de uma fatia do orçamento dos Estados para o estudo da Literatura, da Língua, da Cultura, etc. Mas hoje há outros meios para alimentar este sentimento de pertença a uma comunidade nacional: a TV, a Selecção Nacional, etc. Por outro lado, quando os discursos parecem ser outros (a construção europeia, a globalização), cabe perguntar-mo-nos: para que serve alimentar este discurso da construção nacional?
4. Isto para não dizer que Bolonha, por vezes, parece ser mais um pretexto para que alguns “expertos” transformem o nosso trabalho num inferno de burocracias, com muitos “cronogramas”, “mapas”, “fichas”, “guias”, “créditos ECTS”, “resultados de aprendizagem”, etc.[4].
Experto (expert) aqui oposto, seguindo Beatriz Sarlo[5], a intelectual:
“[Expertos que] na continuidade técnico-administrativa de um Estado que estabelece alianças com grupos que procuram poder e expansão económicos, põem conhecimento técnico ao serviço dos fins pragmáticos do Mercado” [6]
Apesar de tudo, sou optimista quanto ao Processo de Bolonha e à implementação de novas metodologias de ensino-aprendizagem. Porque acredito que a Universidade tem bons profissionais.
Mas: que saudades das magistrais “aulas magistrais” do Professor Aguiar e Silva!

Muito Obrigado.

Homenagem ao
Prof. Vítor Aguiar e Silva
Penalva do Castelo / Viseu, 11 de Novembro de 2006

Curriculum VitaeActualização: Versão em papel em: <!– @page { margin: 2cm } P { margin-bottom: 0.21cm } —Baptista, F. P. (org.) (2007) Vítor Aguiar e Silva: A poética cintilação da palavra, da sabedoria e do exemplo. Viseu: Governo Civil do Distrito de Viseu; págs. 45-47.

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[1] Sousa, Carlos Mendes de e Rita Patrício (eds.) (2004) Largo Mundo Alumiado. Estudos em Homenagem a Vítor Aguiar e Silva. Braga: Centro de Estudos Humanísticos – Universidade do Minho.
[2] “Profesores por el Conocimiento: Sobre el proceso de convergencia europea” (http://firgoa.usc.es/drupal/node/21989) [Novembro de 2006].
[3] Torres Feijó, Elias (2004): “Sobre objectivos do ensino e da investigaçom da literatura”, em Sousa, C. M. de e R. Patrício (2004) Largo Mundo Alumiado. Estudos em Homenagem a Vítor Aguiar e Silva. Braga: Centro de Estudos Humanísticos – Universidade do Minho; págs. 221-249.
[4] Vd. Manifesto de Professores e Investigadores Universitários: ¿Qué Educación Superior Europea? (http://firgoa.usc.es/drupal/node/16133) [Novembro de 2006].
[5] Sarlo Sabajanes, Beatriz (1993) “¿Arcaicos o marginales? Situación de los intelectuales en el fin de siglo”, em Punto de Vista, 47.
[6] Celada, Maite (2006) “De prisa, de prisa, oye, Brasil”, em Unidad en la diversidad. Portal informativo sobre la lengua castellana (http://www.unidadenladiversidad.com/opinion/default.htm) [Novembro de 2006]

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