Edwar Said dixit:

14 Setembro 2006

“Como assinalou Masao Miyoshi numa série de ensaios profusamente argumentados, a universidade estado-unidense de fins do século XX ficou submersa nas práticas empresariais e até certo ponto foi vinculada aos interesses militares, médicos, biotecnológicos ou empresariais, que se mostram muito mais propensos a financiar projectos no âmbito das ciências naturais do que no das humanidades. Miyoshi chega a afirmar que as humanidades – que, como acertadamente supõe, não são o território do gerente de uma empresa mas do humanista – ficaram submersas na irrelevância e em certa minuciosidade pseudomedieval, o que resulta bastante irónico se se tiver em conta que ficaram na moda novos e relevantes campos de estudo como o pós-colonialismo, os estudos étnicos, os estudos culturais e outras disciplinas semelhantes. Isto desviou efectivamente as humanidades da sua legítima preocupação pela investigação crítica dos valores, da história, da liberdade, convertendo-as, ao que parece, numa fábrica de especialidades despreocupadas e repletas de verborreia, muitas das quais se fundam na sua própria identidade e, com o seu jargão técnico e as suas particulares alegações, dirigem-se apenas a pessoas já convictas, acólitos e demais académicos. Se não nos respeitarmos a nos próprios, afirma-se, como é que nos vão respeitar os outros? Poderíamos desaparecer sem ninguém dar por isso. As humanidades tornaram-se inócuas e incapazes de exercer influência sobre nada nem ninguém.”
Edward W. Said (2006) Humanismo e crítica democrática. Barcelona Debate [tradução nossa]
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