O que “vós” fazeis não o fazeis em meu nome

5 Agosto 2006

“Quem é esse «nós» a que o apresentador do telejornal da noite faz referência ao perguntar cortesmente ao Secretário de Estado se as «nossas» sanções a Sadam Hussein são merecidas, quando há literalmente milhões de civis inocentes que não pertencem a esse «regime» atroz e que estão a morrer ou sendo mutilados, a passar fome e a ser bombardeados para que possamos fazer sentir o nosso poder? E quem é esse «nós» quando um simples leitor de imprensa pergunta ao actual Secretário se, no nosso afã por processar o Irak pelas armas de destruição maciça (que em todo o caso não apareceram), «vamos» aplicar o mesmo critério e pedir as armas a Israel (só que neste caso não recebe nenhum tipo de resposta)? […]
Quem é o «nós» que bombardeia civis e que faz caso omisso do saque e pilhagem do extraordinário património do Irak com expressões como «São coisas que passam» ou «A liberdade é incerta»? Deveríamos ser capazes de dizer algures e com certo alcance «Eu não pertenço a esse “nós”, e o que “vós” fazeis não o fazeis em meu nome».

Edward W. Said (2004) Humanism and Democratic Criticism.

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