Estou a ficar surpreendido com a quantidade de vezes que encontro alusões à questão da aquisição de conhecimentos como um “elemento limitador” no ensino universitário (a última, ontem à noite num livro sobre linguística informática).
Será que agora só se pode falar em “resultados de aprendizagem, destrezas, competências, habilidades, etc.” É apenas isto o que um aluno universitário necessita? E os conhecimentos? Passamos apenas a formar “gestores do conhecimento”? Não faz falta adquirir (e gerar) conhecimentos?
Vd. sobre a questão (em fírgoa) o manifesto dos Profesores por el Conocimiento: Sobre el proceso de convergencia europea :
“Ahora adquirir conocimientos e información es el factor limitante. En el futuro no lo será. Para hacernos con la información ya tenemos Internet y otros muchos lugares accesibles. La enseñanza se centrará en adquirir destrezas, habilidades y competencias” (Tribuna Complutense, 15-II-2005, pp.12-13).
Como complemento ao post de 18 de Março As “Letras” Têm Saída? (veja no fim), eis dois parágrafos de Las Humanidades de la era digital , de Concepción Sanz Miguel (via Blog Libros & bitios) (a tradução é minha):
«Até uma década atrás, formar humanistas significava basicamente converter os estudantes em especialistas nos conteúdos e competências das disciplinas específicas do sector…
… o crescimento exponencial do conhecimento, a ausência de qualidade dos conteúdos digitais, o aumento progressivo da exclusão digital e as ameaças à diversidade linguística e cultural do planeta. Estamos convictos de que o licenciado em Humanidades poderia estar especialmente preparado para contribuir a afrontar com eficiência esses grandes escolhos da sociedade do conhecimento e agora a questão é: Como?»

No Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil, recolho este fragmento do livro editado por M. Ferro de que já falei em Março: Ferro, M. (ed.) (2003) Le livre noir du colonialisme, XVIe-XXIe siècle: de l’extermination à la repentance. Paris : Robert Laffont/Hachette, onde se lembra o episódio do navio nigeriano Etireno:

Em Abril de 2001, 43 crianças (23 com idades compreendidas entre os 5 e os 14 anos, e 20 adolescentes) originários do Benin, Mali ou Togo, passageiros do Etireno, foram bloqueados no porto de Cotonou [Benin]. Uma investigação demonstrou que a maior parte das crianças era para ser vendida a ricos ganonenses para servirem como criados ou para trabalharem nas plantações… Comprados nas aldeias por 15 ou 30 euros, eram revendidos depois por (…) 450 euros. «Benin é pobre e Gabão, rico. Ambos países assinaram as convenções das Nações Unidas sobre os direitos da criança. Apesar disto, ninguém aboliu o comércio de escravos ou elaborou leis para castigar os traficantes.»

em: Ferro, M. (ed.) (2005) El Libro Negro del Colonialismo. Madrid: La Esfera de los Libros . pág. 928 (a tradução é minha).

12 de Junho de 2006: O Trabalho Doméstico Infantil
«[…] o trabalho doméstico infantil escapa, a maior parte das vezes, aos olhares exteriores e dá assim lugar em muitos casos, a formas extremas de exploração.
As raparigas, sobretudo, estão submetidas quantas vezes a longas horas de trabalho, sem repouso, sem remuneração ou auferindo quanto muito uma remuneração simbólica. Sem protecção social e jurídica, estão por vezes sujeitas à exploração, aos abusos sexuais e à violência. Crianças privadas da frequência da escola, do contacto com a família, da convivência com outras crianças da mesma idade – crianças cortadas do mundo, crianças a quem a infância é roubada!»
da OIT:
http://www.ilo.org/public/portugue/region/eurpro/lisbon/html/trabalhoinfantil.htm

Lembro a campanha de Intermón Oxfam Fora de jogo! Direitos laborais e produção de roupa desportiva na Ásia

Lembro também a reportagem publicada no Semanário Expresso: «Os miúdos do fio de nylon», onde se denuncia uma situação de exploração infantil, numa fábrica subcontratada em Portugal pela empresa Zara.
Mas os “gurus” aqui da praça (empresários, gestores, economistas, etc.) têm a lata de afirmar que o problema deste país está nos “aumentos salariais excessivos”

Bolonha?

3 Junho 2006

Recolho de Firgoa alguns pontos do Manifesto de Professores e Investigadores Universitários. É do ano passado, mas…:

¿QUÉ EDUCACIÓN SUPERIOR EUROPEA?

Nos preocupa que, so pretexto de que la universidad debe estar al servicio de la sociedad, lo que nadie niega, proliferen las agencias e instituciones extrauniversitarias, que dominadas por el poder político de turno o por poderosos grupos de presión dirijan la política intrauniversitaria.

Nos preocupa que, con el argumento de que la universidad debe atender a las demandas sociales, haciendo una interpretación claramente reduccionista de qué sea la sociedad, en realidad se ponga a la universidad al exclusivo servicio de la empresas y se atienda únicamente a la formación de los profesionales solicitados por éstas.

Nos preocupa que ciertos “expertos” en educación universitaria hayan convenido que la adaptación de los estudiantes al mercado de trabajo sea la única finalidad de la formación universitaria y deba traducirse en la adquisición de “habilidades, destrezas y competencias”, lo que de hecho supone un vaciamiento de contenidos enmascarado en un nuevo lenguaje de origen extra-académico. Muy especialmente nos preocupa que nuestras autoridades académicas hayan comenzado a hablar de la adquisición de conocimiento como el “elemento limitante”, a modo de un viejo traje del que cuanto antes convendría despojarse.

Nos preocupa que, en este contexto y bajo el lema “de la enseñanza al aprendizaje”, la necesidad de reflexión pedagógica, imprescindible para la mejora de la enseñanza universitaria, se convierta en el pretexto para otorgar a una particular disciplina académica, la psicopedagogía, la función de marcar la pauta en las demás. Y que semejante transformación no desemboque en otra cosa que en un aumento desmesurado del trabajo burocrático del profesor (programación, temporalización, fichas, guías docentes), que merme sus energías sin aumentar la calidad de su docencia.

Nos preocupa que caminemos hacia una Universidad cuyo profesorado no va a ser valorado fundamentalmente por sus méritos docentes e investigadores, sino por su capacidad de adaptación a las nuevas tecnologías de información y comunicación (TIC) y a la pedagogía del “aprender a aprender”, y por tanto a una Universidad definida por la menor exigencia de cualificación de sus investigadores y docentes (lo que, desde luego, permite abaratar sus costes).

Nos preocupa, en fin, que la comunidad universitaria no exija ser escuchada, optando por el “sálvese quien pueda” o, como denuncia la Universidad de París 8, por el “cada uno para sí y el mercado para todos”. Lo que está en juego es el futuro de la educación superior en el seno del Estado Social de Derecho

Pode ler o manifiesto na íntegra em Firgoa

O Portal Galego da Língua informa sobre a publicação do número 5 do boletim informativo do Movimento Defesa da Língua. A publicação recolhe informação acerca da actividade dessa organização nos últimos meses, além de outras notícias do mundo da língua. A primeira página vai dedicada na íntegra à recepção das rádios e televisões portuguesas na Galiza.

A Guerra Colonial (1961-1974) – Braga 2 de Junho de 2006. Colóquio integrado na Exposição «Testemunhos da Guerra»
Sinto em falta as vozes da outra parte (no dia 2 apenas uma pessoa, e por confirmar). Não haverá esperança para o futuro (para o futuro da CPLP, por exemplo) se forem apenas “os de um lado” a contar como é que foi o passado.
Uma boa altura para lembrar o excelente livro editado por M. Ferro de que já falei em Março:
Ferro, M. (ed.) (2003) Le livre noir du colonialisme, XVIe-XXIe siècle: de l’extermination à la repentance. Paris : Robert Laffont/Hachette.
Recolho umas linhas sobre a descolonização (“só para contrabalançar”):
“Se um dia se celebrasse um juízo por responsabilidades, os europeus deveriam figurar no banco dos réus como cúmplices, com uma dupla acusação: por violação de domicílio, na origem, e por não assistência a pessoa em perigo, no fim do processo.”
em: Ferro, M. (ed.) (2005) El Libro Negro del Colonialismo. Madrid: La Esfera de los Libros . pág. 768 (a tradução é minha).


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