As "Letras" Têm Saída?

18 Março 2006

A língua é um valor que pertence à esfera do conhecimento, difícil de quantificar.
Como também é difícil de quantificar o teorema de Pitágoras.
Quanto custa o teorema de Pitágoras?
(Royo, 1992)

Os serviços públicos
Com as políticas “défice 3%” a que estamos a assistir, com discursos sobre a suposta pouca competitividade, ou até incompetência, do sector público, pretende-se emagrecer o Estado, talvez até reduzi-lo apenas a uma mera entidade que gere aspectos militares e de segurança (ou nem isso), desaparecendo assim o principal e tradicional fornecedor de saídas profissionais para os alunos de Letras.Ao defender a passagem para mãos privadas de serviços como a educação e a cultura, surge (muito frequentemente sob pretextos de avaliação, qualidade, competitividade) perguntas como: Para que servem as Humanidades? Qual é a sua utilidade? Mas, “lamentavelmente” não me parece que as Humanidades sirvam para produzir muito “lucro”.Neste contexto de redução da despesa pública, as letras podem parecer um “luxo” de que deveremos prescindir.Até agora, as Humanidades tinham uma “função coesionadora das comunidades” (Torres Feijóo, 2004). As Humanidades tinham uma utilidade: o que podemos chamar a construção do discurso nacional, que justificava a reserva de uma fatia do orçamento dos Estados para o estudo da Literatura, da Língua, da Cultura, etc. Mas hoje há outros meios para alimentar este sentimento de pertença a uma comunidade nacional: a TV, a Selecção Nacional, etc. Por outro lado, quando os discursos parecem ser outros (a construção europeia, a globalização), cabe perguntar-se: Para que serve alimentar este discurso da construção nacional?
“Laissez-faire” e globalização
Um modelo económico e social, que incentiva o individualismo e que procura, por cima de qualquer outro valor, apenas o lucro, está a provocar uma desaceleração no crescimento produtivo e do bem-estar em muitos países (Relatório do Desenvolvimento Humano de 2005 da ONU ).Salvaguardando as distâncias, evidentemente, os estragos deste modelo também se fazem notar no âmbito de que nos estamos a ocupar agora. Já pensaram nas virtudes de um modelo que incentiva a confrontação de alunos contra alunos (a lutar pelos poucos ossos que são fornecidos no mercado laboral), ou de universidades contra universidades (a lutar entre si para atrair os potenciais candidatos a estudantes universitários)?Num mercado único (também um mercado cultural, linguístico, mediático, … único) que se rege pelas regras da “competitividade”, em que a educação e a cultura estão em mãos privadas, acabará por ser “uma Microsoft”, por exemplo, a que tratará de eventuais problemas de descrição da língua portuguesa. E será “uma CNN”, por exemplo, a produzir os tais discursos coesionadores da comunidade.O preço de um livro será mais competitivo se as imagens forem impressas para edições em várias línguas ao mesmo tempo. Mas, várias línguas significa mercados em concorrência, portanto, o livro será ainda mais competitivo se for impresso numa única língua. E mais lucros terão as empresas editoriais se se reduzisse o número de autores publicados aos de uma lista universal dos “Top Mais”.
Conclusão
A verdade é que não tenho soluções para o problema das saídas profissionais dos alunos de Letras.Mas também sei que a “inacção” não é a solução. Talvez, aprendendo dos discursos sobre a biodiversidade, que nos ensinam que a consideração dos problemas de diversas perspectivas aumenta a probabilidade de adequação da resposta, a solução passe pela “diversidade dos bens culturais”. A diversidade é garantia de durabilidade e de estabilidade do sistema, pelo facto de não destruir recursos culturais (Royo, 1992). É a diversidade de perspectivas que pode proporcionar soluções decisivas em situações de crise. Ao usar várias ferramentas de pesquisa (Google, Yahoo, Altavista, …) temos mais probabilidades de encontrar mais e melhor informação.Por outro lado, o facto de as licenciaturas em Humanidades não virem a ter um número grande de alunos inscritos não significa que se deva acabar com este tipo de estudos. Contudo, sejamos optimistas. Há saídas profissionais para os alunos de letras: no ensino; na investigação; na indústria audiovisual; na indústria editorial; na criação e gestão de e-conteúdos; na animação, criação e gestão de projectos sócio-culturais; na gestão e dinamização do ócio (para instituições, etc.); no campo da cooperação; na tradução; no jornalismo; na documentação; nas bibliotecas; na política linguística (planificação, assessoramento,…); no turismo; etc.
Referências Bibliográficas
ROYO, Jesús (1992): Una llengua és un mercat. Barcelona: Edicions 62. [trad. galega: Unha lingua é un mercado. Vigo: Galaxia, 1997].
TORRES FEIJÓ, Elias (2004): “Sobre objectivos do ensino e da investigaçom da literatura”, em Sousa, C. M. de e R. Patrício (2004) Largo Mundo Alumiado. Estudos em Homenagem a Vítor Aguiar e Silva. Braga: Centro de Estudos Humanísticos – Universidade do Minho; págs. 221-249.
NOTA: Uma versão deste texto foi enviada, no início deste ano lectivo, para uma publicação de estudantes da Universidade do Minho (a pedido dos mesmos). Desconheço se foi publicada.

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