“Erres” e Política da Língua
23 Maio 2007
Nova versão do post Política da Língua, publicado aqui no dia 2 de Maio, agora no Portal Galego da Língua com o título “Erres” e Política da Língua:
Frederico Lourenço escreveu, no jornal Público , em 7-1-2006 , um texto intitulado “O Som de Portugal”, hoje recolhido em Valsas Nobres e Sentimentais , que começava assim (eram tempos de campanha eleitoral para as presidenciais):
“Manuel Alegre, Mário Soares, Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã têm outra coisa em comum, além do facto de serem de esquerda. Algo de muito sonoro os distingue de Aníbal Cavaco Silva. Trata-se do som da letra “r” em início de palavra (“revolução”), com grafia dupla no interior de um vocábulo (“terra”) ou em sequências como “honra” e “guelra”. O ponto de articulação do “r” dos candidatos de esquerda é apical: a ponta da língua rola contra o palato duro, um pouco atrás daquilo a que Homero chamou “a barreira dos dentes”. No caso de Cavaco Silva, o “r” é articulado na garganta: é o som gutural de quem anuncia a intenção de escarrar. Entrou na nossa fonética por via do estrangeirismo: primeiro conquistou a classe alta por ser o “r” francês; a pouco e pouco, a classe média foi imitando; por fim, contaminou a classe proletária por ser o “r” das telenovelas brasileiras. Hoje, o “r” de Cavaco Silva é o mais ouvido no nosso país.”
